Curva C em compras: como identificar no Protheus e no Datasul, e o que fazer com ela
A curva C é a parte do gasto que ninguém negocia: pedidos pequenos, recorrentes, espalhados em dezenas de fornecedores. Veja como identificar a sua no ERP e por que colocar mais gente não resolve.

Todo gestor de compras conhece a curva ABC. Os itens A concentram o gasto e têm dono: contrato, negociação anual, fornecedor estratégico. Os itens B têm alguma atenção. E os itens C, que são a maioria dos pedidos, passam.
Este artigo é sobre os itens C: o que são em compras, como identificar a sua curva C dentro do Protheus ou do Datasul, e por que a resposta habitual (mais gente, mais processo) não fecha a conta.
O que é curva C em compras
A curva C em compras é o grupo de itens de menor valor individual na classificação ABC do gasto. Na prática, são os pedidos pequenos e recorrentes: parafuso, EPI, material de escritório, peça de reposição, serviço de manutenção, insumo de laboratório. Cada um vale pouco. Juntos, respondem por algo entre 15% e 20% do gasto e por 70% a 80% dos pedidos e dos fornecedores.
O mesmo grupo tem outros nomes, dependendo de quem fala:
- Tail spend ou cauda longa, o termo do mercado internacional, visto pela concentração: muitos pedidos, pouco valor cada.
- Compras indiretas, visto pelo destino: o que sustenta a operação sem entrar no produto final (MRO, facilities, TI, serviços).
- Gastos periféricos, a tradução que a SAP usa em português.
- Compras spot de baixo valor, como aparece em portais de cotação.
São recortes diferentes do mesmo gasto pulverizado. Quem trabalha com TOTVS costuma dizer curva C, porque é a classificação que o ERP já traz. Explicamos a equivalência em detalhe na página de tail spend, curva C e compras indiretas.
Como identificar a curva C no Protheus e no Datasul
Não é preciso relatório novo. A curva ABC de compras sai do histórico de pedidos que o ERP já guarda.
No Protheus, a base está nos itens de pedido de compra (tabela SC7). Exporte doze meses com código do produto, descrição, fornecedor, quantidade, valor total do item (campo C7_TOTAL, não quantidade vezes preço unitário), data e filial. Some o valor por produto, ordene do maior para o menor e acumule o percentual. O ponto em que o acumulado passa de 95% é o começo da curva C. O módulo de compras também classifica por curva ABC no cadastro de produtos, mas o cálculo sobre o histórico real é mais honesto do que a classificação parametrizada.
No Datasul, a fonte é a ordem de compra e o item da ordem, com o preço total da linha. O caminho é o mesmo: valor por item, ordenação, acumulado. Se a empresa usa cotação automática no Datasul, vale cruzar quantos itens C passam por cotação de fato e quantos são emitidos direto, sem disputa.
Três cuidados que mudam o número:
- Use o valor total da linha, não quantidade vezes preço. Descontos, impostos e unidades de preço distorcem a multiplicação.
- Marque o que já está em contrato. Item C coberto por contrato tem preço definido; a oportunidade está no que é comprado fora dele. Na base que a UpFlux analisou, cerca de 45% da cauda estava em contrato.
- Normalize a descrição. "PARAF M6 INX" e "parafuso sextavado m6" são o mesmo item comprado de fornecedores diferentes a preços diferentes. Sem normalizar, a dispersão de preço fica invisível.
O que a curva C esconde: dispersão de preço
O problema da curva C não é o valor de cada pedido. É que o mesmo item, do mesmo fornecedor, sai por preços diferentes ao longo do ano, entre filiais e compradores. Numa base industrial analisada pela UpFlux, um único item de fixação apareceu com dezenas de preços em doze meses. A diferença entre o preço pago e o menor preço que a própria empresa já praticou é dinheiro que sai todo mês, pedido a pedido.
Ninguém cota item miúdo porque cotar um item de R$ 80 leva o mesmo tempo que cotar um de R$ 80 mil. O comprador, corretamente, prioriza o de R$ 80 mil. A cauda inteira passa sem negociação. Não é falha do time: é aritmética de capacidade.
Por que colocar mais gente não resolve
A resposta habitual para a curva C é processo: alçada menor, catálogo, cartão corporativo, fornecedor preferencial. Tudo isso reduz o custo de transação, mas não negocia preço. A outra resposta é gente: um analista júnior para "cuidar do miúdo". Um analista cota, com esforço, algumas dezenas de itens por dia. Uma indústria média emite milhares de pedidos C por mês. A conta não fecha, e o custo do analista come boa parte do saving que ele consegue.
É por isso que a curva C é o primeiro lugar onde agentes de IA fazem sentido em compras. Um agente lê o histórico, encontra o piso de preço já praticado para cada item, negocia com o fornecedor dentro da regra de alçada e emite o pedido no ERP. Ele não se cansa de item miúdo, e trabalha a cauda inteira, todos os dias.
O que fazer com a sua curva C
Em ordem:
- Meça. Monte a curva ABC sobre doze meses de pedidos, separe o que está em contrato e calcule a dispersão de preço por item. Se preferir, a calculadora de cauda de compras dá uma primeira estimativa com os seus números.
- Decida o modelo. Se a empresa quer manter a operação em casa, o Agente Negociador roda como software dentro do Protheus, Datasul ou SAP e trabalha a cauda pedido a pedido. Se a intenção é entregar a operação, o novo BPO de compras opera a central com time digital.
- Prove em reais. Cada pedido convergido ao melhor preço entra num placar auditável. Numa multinacional industrial, R$ 22 milhões processados na cauda devolveram R$ 1,6 milhão ao caixa, sem nenhuma contratação nova.
A curva C não vai desaparecer. Mas ela pode deixar de ser a parte do gasto em que ninguém negocia.


