Matriz de Kraljic na prática: como classificar o que você compra e a estratégia de cada quadrante
A matriz de Kraljic classifica o que a empresa compra por impacto no resultado e por risco de suprimento, em quatro quadrantes: estratégicos, alavancáveis, gargalo e não críticos. Veja como aplicar com os dados do ERP, um exemplo de indiretos e por que os não críticos concentram os pedidos.

A matriz de Kraljic é uma ferramenta de estratégia de compras que classifica cada categoria comprada por dois critérios: o impacto no resultado da empresa e o risco de suprimento. O cruzamento gera quatro quadrantes, itens estratégicos, alavancáveis, gargalo e não críticos, e cada quadrante pede uma forma diferente de comprar, negociar e gerir fornecedores.
O modelo é de 1983 e continua sendo o ponto de partida de quase todo plano de categorias. O que a maioria das explicações não mostra é como aplicá-lo com os dados que a empresa já tem no ERP, e o que acontece com o quadrante que ninguém quer cuidar: o dos não críticos, onde está a maior parte dos pedidos. Este artigo cobre os dois pontos, com um exemplo de compras indiretas e um modelo de planilha, e mostra onde o trabalho de compras com time digital entra na conta.
De onde vem a matriz de Kraljic
Peter Kraljic, então diretor da McKinsey em Düsseldorf, publicou o modelo no artigo "Purchasing Must Become Supply Management", na Harvard Business Review de setembro de 1983 (HBR). O argumento era que compras deixaria de ser uma função de execução de pedidos e passaria a gerir riscos de suprimento, e que para isso a empresa precisava separar o que compra pelo tamanho do impacto e pela dificuldade de garantir o fornecimento.
A ideia sobreviveu porque é simples e porque obriga a uma conversa que muitas áreas de compras não têm: nem tudo merece a mesma atenção, e tratar tudo igual é a forma mais cara de comprar. A mesma separação aparece nas agendas atuais dos CPOs, como em os 5 imperativos do CPO.
Os dois eixos
Impacto no resultado mede quanto aquela categoria pesa no custo e na operação. Entram o valor gasto por ano, a participação no custo total do produto ou do serviço e o efeito na qualidade ou na continuidade da operação.
Risco de suprimento mede a dificuldade de garantir o fornecimento. Entram o número de fornecedores capazes, a facilidade de trocar de fornecedor, a escassez do insumo, a dependência de tecnologia ou de especificação proprietária e o prazo de reposição.
Os dois eixos são avaliados por categoria, não por item avulso. Avaliar item a item gera milhares de pontos na matriz e nenhuma estratégia.
Os quatro quadrantes e a estratégia de cada um
| Quadrante | Impacto | Risco | Exemplo em indiretos | Estratégia | Forma de comprar |
|---|---|---|---|---|---|
| Estratégicos | alto | alto | serviço de manutenção industrial especializada, software crítico da operação | parceria de longo prazo, plano de contingência, gestão do relacionamento | contrato plurianual, revisão periódica com o fornecedor |
| Alavancáveis | alto | baixo | facilities, frota, energia no mercado livre, embalagem padrão | concorrência e negociação pelo volume | concorrência periódica, contrato com meta de preço |
| Gargalo | baixo | alto | peça de reposição de equipamento importado, reagente de fornecedor único | garantir o fornecimento, buscar alternativa, estoque de segurança | contrato de abastecimento, homologação de segundo fornecedor |
| Não críticos | baixo | baixo | material de escritório, EPI comum, ferramentas, itens de manutenção de prateleira | reduzir o custo de processar, padronizar, simplificar | catálogo, acordo de fornecimento, cotação automatizada |
Os quadrantes não são rótulos fixos. Uma categoria alavancável vira gargalo quando o mercado fornecedor se concentra, e uma estratégica pode virar alavancável quando a tecnologia se torna comum. A matriz precisa ser revista pelo menos uma vez por ano.
Como aplicar com os dados do ERP
A matriz costuma ser preenchida numa oficina, com a opinião dos compradores. A opinião ajuda no eixo de risco, mas o eixo de impacto pode e deve sair dos dados. O Protheus, o Datasul e o SAP já registram tudo o que é preciso.
- Extraia 12 meses de pedidos de compra, com item, categoria, fornecedor, valor e data.
- Agrupe por categoria. Se a árvore de categorias do cadastro for ruim, corrija antes: categoria errada gera quadrante errado. O tema é tratado em gestão por categorias, e o perfil do gasto indireto, em compras indiretas.
- Calcule o impacto com o gasto anual da categoria e a participação no gasto total. A curva ABC de compras faz esse corte.
- Pontue o risco de 1 a 5 com critérios escritos: número de fornecedores ativos e capazes, existência de alternativa homologada, prazo de reposição, especificação exclusiva. O número de fornecedores e a concentração do gasto saem do ERP; a existência de alternativa sai da conversa com o comprador da categoria.
- Posicione cada categoria na matriz, com o corte de alto e baixo definido antes, e não depois de ver o resultado.
- Escreva a estratégia de cada quadrante e o dono de cada categoria. Sem dono, a matriz é um desenho. A gestão do relacionamento com os fornecedores dos quadrantes estratégico e gargalo está em gestão de fornecedores em suprimentos.
Uma leitura que quase ninguém faz e que muda a conversa: além do valor, conte quantos pedidos cada categoria gera por ano. É ela que mostra onde o tempo do time de compras está indo.
Exemplo: compras indiretas de uma indústria (hipotético)
O exemplo abaixo é hipotético, montado para ilustrar o método numa indústria de médio porte com gasto indireto de R$ 60 milhões por ano.
| Categoria (hipotético) | Gasto anual | Pedidos por ano | Fornecedores ativos | Risco (1 a 5) | Quadrante |
|---|---|---|---|---|---|
| Manutenção industrial especializada | R$ 14 milhões | 180 | 4 | 4 | Estratégicos |
| Facilities (limpeza, segurança, alimentação) | R$ 12 milhões | 90 | 6 | 2 | Alavancáveis |
| Energia e utilidades | R$ 10 milhões | 40 | 3 | 2 | Alavancáveis |
| Peças de reposição de equipamento importado | R$ 4 milhões | 650 | 7 | 5 | Gargalo |
| Itens de manutenção de prateleira (MRO) | R$ 9 milhões | 5.200 | 240 | 1 | Não críticos |
| EPI, escritório, limpeza e copa | R$ 5 milhões | 3.900 | 160 | 1 | Não críticos |
| Serviços pontuais (pequenas obras, locações) | R$ 6 milhões | 1.400 | 210 | 2 | Não críticos |
Os três primeiros quadrantes somam R$ 40 milhões e cerca de 960 pedidos. Os não críticos somam R$ 20 milhões e cerca de 10.500 pedidos: um terço do gasto e mais de 90% dos pedidos. É aí que o comprador passa o dia, e é aí que quase nunca há cotação de verdade, porque não há tempo. A face de compras do MRO está em compras de MRO.
Kraljic, curva ABC e cauda: a mesma conversa
A matriz de Kraljic e a curva ABC são complementares. A curva ABC ordena as categorias pelo gasto e responde ao eixo de impacto. A matriz acrescenta o risco e transforma a ordenação em estratégia.
O cruzamento dos dois mostra um padrão que se repete em quase toda empresa: o quadrante dos não críticos coincide em boa parte com a curva C, os itens de menor valor unitário, comprados muitas vezes, de muitos fornecedores. A explicação da cauda está em curva C em compras, e a sua leitura como frente de saving está em tail spend.
O erro comum é concluir que "não crítico" quer dizer "sem importância". O item individual não importa; a soma importa. R$ 20 milhões comprados sem comparação de preço custam caro, e a matriz, sozinha, não resolve: ela diz qual é a estratégia (reduzir o custo de processar e padronizar), mas não fornece o braço para executá-la em 10 mil pedidos.
Modelo de planilha da matriz
Uma planilha simples resolve a primeira versão. Use uma linha por categoria e estas colunas:
| Coluna | O que preencher | De onde vem |
|---|---|---|
| Categoria | nome da categoria da árvore de compras | cadastro do ERP |
| Gasto em 12 meses | soma dos pedidos | ERP |
| Participação no gasto | gasto da categoria dividido pelo total | cálculo |
| Pedidos em 12 meses | contagem de pedidos | ERP |
| Fornecedores ativos | fornecedores com pedido no período | ERP |
| Concentração | participação do maior fornecedor no gasto da categoria | cálculo |
| Nota de impacto (1 a 5) | por faixa de participação no gasto, com corte definido antes | regra escrita |
| Nota de risco (1 a 5) | média dos critérios de risco | comprador da categoria |
| Quadrante | combinação das duas notas | cálculo |
| Estratégia e dono | o que fazer e quem responde | gestor de compras |
A coluna de pedidos e a de concentração não fazem parte do modelo original, mas são as que mais ajudam a decidir. A concentração alta num quadrante de gargalo, por exemplo, aponta dependência de um só fornecedor, assunto de fornecedor único.
Erros comuns na aplicação
- Pontuar risco por impressão. Sem critério escrito, cada comprador puxa a sua categoria para "estratégica".
- Usar a matriz só uma vez. Mercado fornecedor muda. A revisão anual é o mínimo.
- Classificar item, não categoria. O resultado vira uma nuvem de pontos sem decisão.
- Esquecer serviços. Serviços costumam ficar fora da árvore de categorias e, por isso, fora da matriz.
- Deixar os não críticos sem estratégia. "Simplificar" precisa virar catálogo, acordo de fornecimento ou execução automatizada, com meta e prazo. A conversa sobre quando transformar pedidos avulsos em acordo está em compras recorrentes.
Perguntas frequentes
O que é a matriz de Kraljic?
É uma ferramenta de estratégia de compras criada por Peter Kraljic e publicada na Harvard Business Review em 1983. Ela classifica as categorias compradas por impacto no resultado e por risco de suprimento, em quatro quadrantes: estratégicos, alavancáveis, gargalo e não críticos, cada um com uma estratégia de compra própria.
Quais são os quatro quadrantes da matriz de Kraljic?
Itens estratégicos (alto impacto e alto risco), alavancáveis (alto impacto e baixo risco), gargalo (baixo impacto e alto risco) e não críticos (baixo impacto e baixo risco). Os estratégicos pedem parceria; os alavancáveis, concorrência; os gargalo, garantia de fornecimento; e os não críticos, redução do custo de processar.
Como fazer a matriz de Kraljic na prática?
Extraia 12 meses de pedidos do ERP, agrupe por categoria, calcule o impacto pelo gasto anual, pontue o risco com critérios escritos (número de fornecedores, alternativa homologada, prazo de reposição), posicione cada categoria e defina a estratégia e o dono de cada uma. Conte também os pedidos por categoria para ver onde está o tempo do time.
Qual a diferença entre matriz de Kraljic e curva ABC?
A curva ABC ordena o que se compra só pelo valor gasto. A matriz de Kraljic cruza o impacto, que a curva ABC ajuda a medir, com o risco de suprimento, e define uma estratégia por quadrante. Uma responde "onde está o dinheiro"; a outra, "como comprar cada coisa".
O que fazer com os itens não críticos?
Reduzir o custo de processar cada pedido sem abrir mão da comparação de preço: catálogo e acordo de fornecimento para o que se repete, regra de cotação proporcional ao valor e execução automatizada da cotação e do pedido para o volume que o time não consegue tratar.
Como a UpFlux faz
A matriz diz que os não críticos pedem custo baixo de processar; a UpFlux entrega o braço que executa essa estratégia. O time digital de compras da UpFlux cota, negocia e emite o pedido da cauda dentro do Protheus, do Datasul ou do SAP, com o histórico de preço do item como referência e dentro da alçada, e o comprador decide só a exceção. O time humano fica com os quadrantes estratégico, alavancável e gargalo, onde a negociação pede gente. O ponto de partida é o diagnóstico da sua base de pedidos em tail spend.
Onde isto vira operação
- IA em compras, do começo ao fimO que a IA já decide sozinha em compras, o que continua com o comprador e por onde a operação começa.
- Agentes de IA para empresasO catálogo de agentes em produção, de compras a contas médicas, com governança e o retorno de cada um medido em reais.
- Capacidade em comprasCotação, negociação e pedido dentro do ERP, com alçada definida e aprovação por exceção.



