Curva ABC de compras: como classificar gasto e fornecedores com os pedidos do ERP

Publicado em Atualizado em 8 min de leituraPor Alex Meincheim, CEO & Co-founder, UpFlux

A curva ABC de compras ordena o gasto por item, categoria ou fornecedor e separa as classes A, B e C pelo valor acumulado. Veja como montar com os pedidos do Protheus, do Datasul ou do SAP, como justificar os cortes, a curva ABC de fornecedores e a estratégia de cada classe.

Curva ABC de compras: como classificar gasto e fornecedores com os pedidos do ERP

A curva ABC de compras ordena o gasto do maior para o menor, por item, categoria ou fornecedor, e divide o resultado em três classes pelo percentual acumulado: A, os poucos que concentram o valor; B, o meio; e C, a cauda de muitos itens com pouco valor cada. Monta-se com os pedidos de 12 meses.

Quase todo material sobre curva ABC trata de estoque ou de vendas. A curva de compras é outra: ela mede o gasto, inclui serviços e itens que nunca passam pelo estoque, e serve para decidir onde negociar, onde contratar e onde simplificar. Este artigo mostra o método completo com os dados do ERP, a curva ABC de fornecedores, como justificar os cortes e o que fazer com cada classe. O que fazer em detalhe com a classe C está em curva C em compras; aqui fica o método. Ao final, mostramos onde a operação de compras com time digital muda o tratamento da cauda.

Curva ABC de compras não é curva ABC de estoque

As duas usam o mesmo princípio de Pareto, mas respondem a perguntas diferentes.

Curva ABC de estoque Curva ABC de compras
O que mede valor de consumo ou de saldo de cada item estocado valor gasto em pedidos de compra
O que entra só itens com controle de estoque materiais, serviços, itens de consumo direto, contratos
Para que serve política de reposição, inventário, nível de serviço estratégia de negociação, contratos, foco do time de compras
Quem usa planejamento de materiais, almoxarifado compras, controladoria, CPO e CFO

Usar a curva de estoque para decidir a estratégia de compras deixa de fora justamente os serviços e os itens de consumo direto, onde boa parte do gasto indireto está.

Como fazer a curva ABC de compras, passo a passo

O Protheus, o Datasul e o SAP já registram todos os dados necessários. O que muda de um para outro é o relatório de onde se extrai, não a lógica.

  1. Extraia os pedidos de 12 meses, com item, descrição, categoria, fornecedor, quantidade, valor total e data. Use o pedido emitido, não a solicitação: é o pedido que vira gasto. Se a empresa tem muita nota sem pedido, some as notas, senão a curva esconde justamente o gasto fora do processo (ver maverick spend).
  2. Escolha a unidade de análise. Por item serve para negociação de preço; por categoria, para estratégia; por fornecedor, para gestão de fornecedores. Faça as três, uma de cada vez.
  3. Some o valor por unidade de análise no período.
  4. Ordene do maior para o menor.
  5. Calcule a participação de cada linha no total e o percentual acumulado.
  6. Aplique os cortes. Uma convenção comum é A até 80% do acumulado, B de 80% a 95% e C acima de 95%. Ela é ponto de partida, não regra: a próxima seção mostra como justificar o corte.
  7. Conte os pedidos e os fornecedores de cada classe. É a coluna que transforma a curva em decisão.

Na planilha, isso cabe em seis colunas: unidade de análise, valor em 12 meses, participação, acumulado, classe e número de pedidos. A ordenação e o acumulado são uma soma corrida da coluna de participação; a classe é uma regra condicional sobre o acumulado. Não é preciso ferramenta nenhuma além da planilha para a primeira versão.

Exemplo de curva ABC de compras por categoria (hipotético)

O exemplo abaixo é hipotético: uma empresa de serviços com R$ 40 milhões de gasto indireto em 12 meses.

Categoria (hipotético) Gasto em 12 meses Participação Acumulado Classe Pedidos
Facilities R$ 13,0 milhões 32,5% 32,5% A 60
Tecnologia e telecom R$ 9,0 milhões 22,5% 55,0% A 140
Frota e logística R$ 6,0 milhões 15,0% 70,0% A 220
Manutenção predial R$ 4,0 milhões 10,0% 80,0% A 610
Marketing e eventos R$ 3,0 milhões 7,5% 87,5% B 380
Consultorias e serviços pontuais R$ 2,8 milhões 7,0% 94,5% B 520
Material de escritório, copa e limpeza R$ 1,2 milhão 3,0% 97,5% C 2.700
EPI, ferramentas e diversos R$ 1,0 milhão 2,5% 100,0% C 3.400

A classe A tem quatro categorias, 80% do gasto e cerca de 1.030 pedidos. A classe C tem 5,5% do gasto e 6.100 pedidos: mais de 75% de tudo o que o time de compras emite. Lida só pelo valor, a curva diz que a classe C não importa. Lida também pelos pedidos, ela diz onde está o trabalho.

Como justificar os cortes

O corte 80/95 é uma convenção. Para defendê-lo diante do CFO ou ajustá-lo, use três critérios:

  • Capacidade do time. A classe A deve ter um número de itens ou categorias que o time consegue negociar ativamente, com contrato e revisão periódica. Se a classe A tem 400 itens e o time tem três compradores, o corte está largo demais.
  • Ponto de virada da curva. Em muitas bases, a curva acumulada sobe rápido e depois achata. O cotovelo é um corte mais natural do que um número fixo.
  • Custo de processar contra valor. Na classe C, o custo interno de cotar e aprovar um pedido pode passar do que dá para economizar nele. O cálculo está em quanto custa um pedido de compra.

Escreva o critério usado. A curva sem critério escrito é refeita a cada reunião com um resultado diferente.

Curva ABC de fornecedores

A mesma conta, agrupada por fornecedor, responde a outras perguntas:

  • Concentração. Quantos fornecedores fazem 80% do gasto? Poucos fornecedores na classe A é sinal de poder de negociação, mas também de dependência. O risco de depender de um só fornecedor é tratado em fornecedor único.
  • Pulverização. Quantos fornecedores estão na classe C? Centenas de fornecedores com uma ou duas compras por ano custam cadastro, conferência fiscal e pagamento, e raramente passam por qualquer avaliação.
  • Sobreposição. O mesmo item aparece comprado de vários fornecedores da classe C? É candidato a acordo de fornecimento, como explicado em compras recorrentes.

Cruze a curva de fornecedores com a de categorias. Fornecedor da classe C numa categoria da classe A é, quase sempre, uma compra que fugiu do contrato.

O que fazer com cada classe

Classe Perfil típico Estratégia Forma de comprar
A poucos itens ou categorias, maior parte do gasto negociação ativa, contrato, gestão de fornecedor concorrência periódica, contrato com meta de preço, revisão com o fornecedor
B volume intermediário padronizar e consolidar acordo de fornecimento, cotação com mapa simples
C muitos itens e fornecedores, pouco valor cada reduzir o custo de processar sem perder a comparação de preço catálogo, acordo para o recorrente, cotação e pedido automatizados com referência de histórico

A curva ABC diz onde está o dinheiro. Para decidir como comprar cada categoria, cruze com o risco de suprimento na matriz de Kraljic. A leitura completa do gasto, por categoria, área e fornecedor, é o tema de spend analytics, e a classe C tem um perfil próprio nas compras indiretas.

Erros comuns

  • Usar o cadastro de item sem limpar. O mesmo parafuso cadastrado com cinco códigos aparece como cinco itens pequenos na classe C, quando somado seria classe B.
  • Esquecer as notas sem pedido. A curva fica bonita e mente.
  • Fazer só por valor. Sem a contagem de pedidos, a classe C parece irrelevante.
  • Fazer uma vez. A curva muda com contratos novos, sazonalidade e troca de fornecedor. Refaça a cada trimestre.
  • Parar na classificação. Curva sem estratégia e sem dono por classe é relatório, não gestão.

Perguntas frequentes

O que é a curva ABC de compras?

É a classificação do gasto de compras em três classes pelo valor acumulado: A, os poucos itens, categorias ou fornecedores que concentram a maior parte do gasto; B, o volume intermediário; e C, a cauda de muitos itens com pouco valor cada. Ela se monta com os pedidos de compra dos últimos 12 meses.

Como fazer a curva ABC de compras?

Extraia 12 meses de pedidos do ERP, some o valor por item, categoria ou fornecedor, ordene do maior para o menor, calcule a participação e o percentual acumulado e aplique os cortes, por exemplo 80% e 95%. Conte também os pedidos e os fornecedores de cada classe.

Qual o percentual de cada classe na curva ABC?

Não há percentual obrigatório. Uma convenção comum é A até 80% do valor acumulado, B de 80% a 95% e C acima de 95%. O corte deve ser ajustado pela capacidade do time de compras, pelo ponto em que a curva achata e pelo custo de processar cada pedido.

O que é a curva ABC de fornecedores?

É a mesma classificação feita por fornecedor: mostra quantos fornecedores concentram o gasto, quantos estão pulverizados na cauda e onde o mesmo item é comprado de vários fornecedores pequenos. Serve para medir dependência, consolidar a base e achar compras fora de contrato.

Qual a diferença entre curva ABC de compras e de estoque?

A de estoque mede o valor de consumo ou de saldo dos itens estocados e serve para a política de reposição. A de compras mede o valor gasto em pedidos, inclui serviços e itens sem estoque, e serve para decidir a estratégia de negociação e o foco do time de compras.

Como a UpFlux faz

A UpFlux monta a curva ABC com os pedidos do Protheus, do Datasul ou do SAP e mede, transação por transação, quanto da classe C sai sem cotação e com preço acima do histórico da própria empresa. A visão do gasto por categoria e fornecedor está em inteligência de compras. Para a execução, o time digital de compras cota, negocia e emite o pedido da cauda dentro do ERP, dentro da alçada, e o comprador decide só a exceção.

Onde isto vira operação

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