Desperdício na saúde suplementar: quanto é e que parte a operadora controla na conta
Fraude, erro, desperdício e sobreutilização geram pagamento indevido, mas não são a mesma coisa. Os números do IESS, as três famílias de desperdício da OCDE e o que a operadora consegue controlar na autorização e na conta, e o que fica fora dela.

Desperdício na saúde suplementar é o uso inadequado ou excessivo de recursos por ineficiência ou falha de processo, sem intenção de fraudar. O IESS estimou fraudes e desperdícios somados entre R$ 30 bilhões e R$ 34 bilhões em 2022. A operadora controla na conta a parte que deixa rastro: quantidade, repetição, registro e autorização.
O número do IESS costuma aparecer em toda apresentação sobre custo assistencial, quase sempre como "fraudes e desperdícios", tudo junto. Para a gestão da operadora, juntar ajuda pouco. Fraude, erro, desperdício e sobreutilização têm causas diferentes, deixam rastros diferentes na conta e pedem respostas diferentes. Uma operadora que trata tudo como fraude briga com a rede; uma que trata tudo como desperdício deixa a fraude passar.
Este guia separa as quatro categorias, mostra de onde vêm os números e responde à pergunta prática: que parte do desperdício a operadora consegue ver e controlar na autorização e na conta? É o recorte em que a auditoria de contas médicas da UpFlux trabalha, conferindo 100% das contas com o auditor decidindo.
Quanto é o desperdício na saúde suplementar
O estudo do IESS com a EY, publicado em novembro de 2023, estimou fraudes e desperdícios em 11,1% a 12,7% da receita das operadoras, ou de R$ 30 bilhões a R$ 34 bilhões em 2022, sobre um faturamento de R$ 270 bilhões. O estudo trata as duas coisas juntas e não informa quanto é cada uma.
Na mesma publicação, o IESS retoma uma estimativa anterior do instituto: entre 12% e 18% das contas hospitalares apresentam itens indevidos, e de 25% a 40% dos exames laboratoriais não são necessários (IESS, levantamento anterior). São dois números úteis para a operadora porque apontam onde olhar: a conta hospitalar e o pedido de exame.
O que esses números não dizem é quanto do desperdício é controlável pela operadora. Parte dele nasce em decisões clínicas, em falta de coordenação do cuidado ou em preço de insumo na cadeia, e nenhuma auditoria de conta alcança essa parte sozinha.
Fraude, erro, desperdício e sobreutilização
As quatro categorias produzem o mesmo efeito, um pagamento que não deveria ter sido feito ou que deveria ter sido menor. A diferença está na causa e na resposta.
| Categoria | O que é | Há intenção? | Exemplo | Onde aparece | Resposta da operadora |
|---|---|---|---|---|---|
| Fraude | Ato doloso para obter benefício indevido (definição do IESS) | Sim | Sessão de terapia cobrada sem ter acontecido; recibo fracionado para reembolso | Na conta, no reembolso, no padrão do prestador | Evidência, glosa, apuração jurídica |
| Erro | Cobrança incorreta sem intenção | Não | Código trocado, quantidade digitada a mais, tabela desatualizada | Na conta, item a item | Glosa motivada e correção na origem |
| Desperdício | Uso inadequado ou excessivo de recursos por ineficiência ou falha de processo (definição do IESS) | Não | Material aberto e não usado; exame repetido porque o anterior não estava disponível | Na conta, na autorização, no processo | Regra, protocolo, gestão da rede e do processo |
| Sobreutilização | Exames, tratamentos ou internação além do que o quadro clínico pede | Às vezes | Ressonância sem indicação; internação prolongada | Na autorização e no padrão do prestador | Diretriz na autorização, médico auditor, junta |
A sobreutilização é a fronteira mais difícil. O estudo do IESS a lista entre as fraudes de prestador, mas registra que ela se confunde com desperdício: vira fraude quando está associada a vantagem indevida, como propina na indicação de medicamento, procedimento ou OPME. Sem essa associação, é uma questão de critério clínico, que se discute com diretriz e com o médico assistente, e cuja negativa, quando cabe, é sempre de médico auditor.
O artigo sobre fraude em contas médicas detalha a primeira categoria, com a tipologia completa.
As três famílias de desperdício
O IESS organiza o desperdício a partir do relatório da OCDE "Tackling Wasteful Spending on Health", de 2017, em três famílias.
Cuidados desnecessários ou de baixo valor. O paciente não recebe o cuidado certo: atendimento inadequado, serviço duplicado, evento adverso que poderia ter sido evitado. O estudo do IESS cita a estimativa da OCDE de que mais de 10% das despesas hospitalares vão para corrigir erros evitáveis.
Desperdício operacional. O mesmo cuidado poderia ser entregue com menos recursos: preço acima do necessário, material aberto e não usado, insumo caro usado quando um mais barato teria o mesmo efeito.
Desperdício de governança. Recursos que não chegam ao cuidado, seja por despesa administrativa ineficaz, seja por desvio de finalidade.
O estudo acrescenta exemplos que a operadora conhece bem: postergar a alta para manter o leito ocupado, pedir mais códigos de procedimento que o necessário para uma cirurgia, usar mais materiais e OPME que o necessário, repetir exames por falta de coordenação entre prestadores.
O que a operadora controla na conta
A conta é onde o desperdício deixa rastro. O estudo do IESS lista motivos de glosa que as operadoras usam contra desperdício, e quase todos são conferências de coerência: a quantidade cobrada combina com o que aconteceu?
| O que conferir | Controle na autorização | Controle na conta |
|---|---|---|
| Quantidade de material e medicamento | Quantidade prevista no pedido | Quantidade compatível com a permanência e com a prescrição |
| Diárias | Número de diárias previsto na internação eletiva | Diárias compatíveis com a evolução e com a alta registrada |
| Terapias seriadas | Plano terapêutico e periodicidade | Sessões cobradas iguais às assinaturas no controle de sessões |
| OPME | Material, marca e quantidade autorizados | Quantidade compatível com o procedimento realizado, etiquetas no prontuário |
| Exames | Pedido com indicação, repetição em intervalo curto | Exame com justificativa, sem duplicidade |
| Taxas e equipamentos | Procedimento e local autorizados | Taxa de sala e uso de equipamento compatíveis com o procedimento |
| Equipe | Procedimento e porte | Participação de auxiliares compatível com o procedimento cobrado |
| Autorização | Pedido autorizado como veio, em parte ou negado | Quantidade cobrada acima da autorizada |
Essas conferências têm três características em comum. Dependem de comparar a conta com outro documento: autorização, prescrição, evolução, controle de sessões, descrição cirúrgica. Funcionam melhor quando aplicadas a todas as contas, porque o desperdício se espalha em itens pequenos que a amostra não alcança. E geram glosas que precisam de motivo claro, para não virarem disputa com a rede.
O guia de auditoria de contas médicas mostra as etapas da análise, e o de glosas mostra como motivar cada uma.
O que a conta não resolve
Uma parte grande do desperdício está fora do alcance da conta. Não adianta glosar o que foi feito, autorizado e registrado conforme a indicação do médico assistente, mesmo que outra conduta fosse mais eficiente.
- Coordenação do cuidado. Exames repetidos porque o paciente passou por vários prestadores e ninguém tinha o histórico. A resposta é coordenação, navegação e gestão de crônicos, temas do artigo sobre coordenação de cuidados.
- Prevenção. Internações que não aconteceriam com acompanhamento adequado.
- Preço na cadeia. O preço de dispositivos implantáveis e insumos importados se forma antes da conta; a operadora atua por contrato, cotação e referência, como mostra o guia de auditoria de OPME.
- Decisão clínica dentro da diretriz. Se a indicação segue diretriz e cobertura, a discussão é de protocolo com a rede, não de glosa.
A sinistralidade é a soma de tudo isso. A auditoria de contas protege a parte da sinistralidade que é pagamento indevido; a gestão de saúde atua sobre a parte que é uso.
O desperdício que a própria operadora gera
Existe um desperdício que não aparece no estudo setorial e que a operadora controla por inteiro: o do próprio processo. Pedido de complementação feito em rodadas, conta parada esperando um auditor que está no fechamento do mês, recurso de glosa refeito porque a primeira resposta não tinha o motivo, cadastro de prestador desatualizado que trava o pagamento.
Nos Estados Unidos, o órgão que administra o Medicare informa que a maior parte dos pagamentos indevidos medidos vem de documentação ausente ou insuficiente, não de fraude (CMS, 15/01/2026). Documentação é processo. A mineração de processos na saúde mostra onde cada autorização e cada conta esperam, voltam e são refeitas, a partir dos registros dos sistemas. É a base para atacar esse desperdício com dado, e não com impressão.
Como medir o desperdício que a operadora controla
| Indicador | Como medir | O que revela |
|---|---|---|
| Itens indevidos por conta | Percentual de contas com ao menos um item glosado por desperdício ou erro, por tipo de conta | Tamanho do problema na sua base, comparável ao intervalo do IESS |
| Valor glosado por categoria | Em reais, separado em erro, desperdício e fraude | Onde o dinheiro está |
| Glosa sustentada | Percentual de glosas mantidas depois do recurso | Se a glosa tem motivo e evidência |
| Reincidência por prestador | Mesmo motivo de glosa em meses seguidos | Se a informação volta para a rede e para a autorização |
| Exames repetidos | Mesmo exame, mesmo paciente, em intervalo curto | Falha de coordenação |
| Tempo de ciclo da conta | Da entrega do lote ao pagamento | Desperdício do próprio processo |
Como a UpFlux faz
A auditoria de contas médicas da UpFlux confere 100% das contas contra autorização, prescrição, evolução, controle de sessões e tabela, e aponta ao auditor cada item incoerente com a evidência e o motivo. A decisão é do auditor, e glosa por motivo clínico é de médico auditor. A Auditoria de Liberação leva as mesmas regras para a entrada: libera o pedido conforme e manda ao auditor o que tem mérito, sem nunca negar sozinha. A process intelligence mede o processo de ponta a ponta, transação por transação.
A operação roda dentro dos sistemas que a operadora já usa, como Tasy, MV e o sistema da própria operadora, e atende mais de 50 singulares do Sistema Unimed, entre elas Unimed Paraná, Unimed BH, Unimed Sorocaba e Unimed Serra Gaúcha. Para separar erro, desperdício e fraude na sua base, fale com a equipe de auditoria de contas médicas da UpFlux.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre fraude e desperdício na saúde?
Fraude é ato doloso para obter benefício indevido. Desperdício é uso inadequado ou excessivo de recursos por ineficiência ou falha de processo, sem intenção. Os dois geram pagamento indevido, mas a fraude pede apuração e o desperdício pede regra, protocolo e gestão.
Quanto se desperdiça na saúde suplementar?
O IESS, em estudo com a EY de novembro de 2023, estimou fraudes e desperdícios somados entre R$ 30 bilhões e R$ 34 bilhões em 2022, de 11,1% a 12,7% da receita das operadoras. O estudo não separa os dois. Uma estimativa anterior do instituto aponta itens indevidos em 12% a 18% das contas hospitalares.
O que é sobreutilização em plano de saúde?
É a realização de exames, tratamentos ou internação além do que o quadro clínico pede. O IESS a classifica entre as fraudes quando está associada a vantagem indevida; sem isso, é questão de critério clínico, tratada com diretriz, médico auditor e, se houver divergência, junta médica.
A auditoria de contas reduz o desperdício?
Reduz a parte que deixa rastro na conta: quantidade incompatível, item sem registro, sessão sem assinatura, cobrança acima do autorizado. Não alcança sozinha o desperdício de coordenação do cuidado, de prevenção e de preço na cadeia, que pede gestão de saúde e contrato com a rede.
Como separar erro de desperdício numa conta?
Pelo padrão. Um item errado isolado tende a ser erro de digitação ou de tabela. O mesmo excesso se repetindo no mesmo prestador, procedimento após procedimento, indica desperdício de processo ou critério, e pede conversa com a rede e regra na autorização.
Onde isto vira operação
- Auditoria de 100% das contasO agente analisa toda conta dentro do Tasy, do MV ou do sistema da operadora e devolve ao auditor só o que muda o número.
- O mesmo agente, nas outras operaçõesContas médicas, leitos e pronto atendimento rodam o mecanismo que compras usa para cotar e emitir pedido: decidir dentro da alçada e devolver a exceção para a pessoa.
- Capacidade em saúdeContas, leitos e pronto atendimento na mesma operação, com resultado em reais.



